Ser humano é negócio de branco

Foto: Poesta russo Vladimir Maiakovski/Arquivo do Museu da URSS

Edson Pereira Filho

Tempos atrás, gente da Globo News, canal fechado do Grupo Globo, resolveu ter, sem maiores explicações, um circunlóquio entre jornalistas sobre a questão racial. Participava de tal debate Ali Kamel, entre outros jornalistas da casa. Lá pelas tantas, os debatedores, que não sentem na pele a questão do racismo, que não são estudiosos no assunto, resumiram tudo numa fala carregada de obviedades: o importante é ser humano 365 dias do ano. O próprio cantor Ivan Lins também falou a mesma frase dia destes no Facebook.

Ouço muito este papo que somos humanos e que não seria necessário ter um dia dedicado à luta contra o racismo. Ouço de jornalistas. Ouço de juízes. Ouço de alunos. Ouço de policiais. Ouço de donas de casa. Ouço…ouço..ouço

O fato é que saído da condição de ser, ou seja, biológico, deixamos à condição humana quando a cultura, a cor da pele, a religião e o dinheiro delimitam nosso ser e, aí, nossa tal condição humana vai para o ralo literalmente.

Ainda bem que somos limitados por tais fatores sociológicos, diriam alguns, pois assim teríamos com o que nos preocupar para transpor tais obstáculos. O detalhe sórdido é que a cor da pele não se pode mudar em larga escala, um cantor americano fez isso, e os meios hiperbáricos que usou custaram caro a sua pele, quiçá a sua vida.

Então, tais condições humanas, ao que parecem, são imutáveis, e acredito mesmo que não devam ser mudadas. Mudar a cor da pele é antes de tudo uma violência, não uma evolução, como quiseram fazer acreditar seguidores de Levis Strauss.

Voltamos ao ponto inicial. Quando o poeta cubista russo Vladimir Maiakovski disse:

“Oh, sábios que tocais ternos violinos

Não podei-vos fazer como eu,

Virar-vos pelo avesso

Para ser todo lábios”

Antes de qualquer coisa, a tradução do poema é minha, então peço paciência, Campos traduz quase do mesmo jeito. Feito a ressalva, o poeta diz, literalmente, que se virássemos a pele pelo avesso, todos, seríamos lábios. Lógico, Maiakovski fala de sentimento em sua poética, algo que poucos carregam dentro de si. Mas retomando o conceito básico, somos vermelhos, temos vísceras e, somos sim, viscerais, dependendo de nossa armadura cultural, nossa grana, nossos conceitos e preconceitos. Pois bem, o humano está resolvido, ou seja, ele vai até o feto, quando este deixa a barriga da mãe tem que carregar o DNA da cultura que será imposta a ele.
O racismo e a discriminação, a violência premeditada contra a população negra, seja ela pobre ou rica; seja ela branquinizada ou não, ganha fortes contornos fora da barriga da mãe.

A branquinização, processo adotado pelo negro como subserviência ao branco para com isso ser “aceito” socialmente, é um dos últimos caquéticos bastiões do racismo abrasileirado.

Como bem assinala a ministra Nilma Gomes, nobre reitora, e sua colega Petronilha, pesquisadora renomada em Educação pela USP, autoridade do Currículo Nacional de Ensino, o racismo vive inventando novas formas e discursos. O último deles, mais falado por brancos e negros (até dito consciente politicamente) é o Discurso da Diversidade. Segundo as pesquisadoras citadas, a diversidade é o novo discurso do racismo. Em síntese, segundo as estudiosas, a diversidade dilui a luta de grupos (gays, lésbicas, negros, mulheres etc.), fazendo com que estes percam sua identidade e tino para questões específicas. Numa frase Petronilha diz:

“O discurso da diversidade é o novo contorno do racismo”

Então, pessoas globais dizendo isso, não é algo para se espantar, faz parte de uma orquestração muito maior. Embora admire o programa de Regina Casé, por exemplo, o chamado Esquenta, sei que tal discurso tem como pano de fundo o abrandamento das questões de proa do movimento negro. O episódio envolvendo a PM e a morte do bailarino da apresentadora, foi esclarecedor no quesito: não queremos confusão com o Establishment.

Após 389 anos trabalhando sem receber salários, sem condições de trabalho, tortura, espancamentos, homicídios entre outras atrocidades, negros não precisam de 365 dias de humanidade, precisam, antes de tudo, receber em dinheiro, as tais cotas abominadas por alguns, por um longo tempo, a fortuna que construíram para brancos ociosos, para ser educado. E os jornalistas globais que dizem sobre tal humanidade, precisam parar de macaquear o que seus patrões mandam dizer.

Edson Pereira Filho é jornalista, professor e escritor.