A distância de Haia

CRÔNICA
Edson Pereira Filho

Foto: Escritora Clarice Lispector/Arquivo de família

Como Clarice Lispector, desculpe-me por tamanha pretensão minha em citá-la, me pego a lembrar da distância da minha filha Cecília, especialmente.

Cecília que, desde os três meses de vida, conviveu com filhos de médicos, filhos de professores universitários, filhos de pedreiros, filhos de serventes,filhos de presidiários, filhos de mãe solteira, enfim toda sociedade estava representada no berçário da Unicamp, depois na creche e, já na escola pública de Sérgio Porto, conheceu a segregação escolar, e outras que viriam.

Clarice Lispector foi um pouco assim, não era ucraniana, muito menos russa e quando aqui chegou (no Recife) com alguns dias de vida começou a se perceber brasileira.

Penso que minha filha também, guardada as devidas distâncias, percebeu-se um ser sociável, com muitas mães e até muitos pais que eram os funcionários de tais espaços infantis.

Sim, em casa o devido carinho, a conversa, as leituras, as contações de estórias, e Vivaldi já conversava com ela na barriga da mãe.

Mesmo com tudo isso, esta criação tornou Cecília cidadã do mundo, não tão afeita a figura materna ou paterna, mas uma pessoa melhor, que soube ver nos outros sua família e convivência.

Não que Clarice Lispector fosse assim, até grandes literatos jogaram sobre ela diversas definições, antes e depois de sua morte. Clarice preferia citar uma história de uma amiga que contava o seguinte:

– Fui fotografar uma baiana e ela não deixou dizendo: Você quer tirar a minha alma?

Clarice nunca deixou se ver completamente, assim são os filhos também com seus pais.

Nunca falou, abertamente, do seu amor pelo pai, Pedro Lispector. Da mãe Marieta, sempre com face dura e poucas conversas.
Clarice, judia, não se sentia judia, e nem acreditava que os judeus são seres predestinados por Deus. Entretanto, guardou do pai, a imagem de alcançar virando de costas, sentado à mesa do jantar, os talheres e o que mais pudesse para que todos jantassem em paz.

A imagem que a escritora judia guardava do pai depois de morto, é que a mesma estava na sala de jantar flutuando, com o pai, de tanto girar a cadeira, abrindo uma cratera no chão de cimento e sumindo. Uma metáfora e tanto para explicar as relações entre filhos e pais.

Cecília, minha filha, está distante também, falo com ela no whatssap quando sinto que devo fazer tal contato, ela troça, brinca o quanto pode comigo, ainda bem. Não sei explicar, mas sempre tenho a impressão de estar distante mesmo estando, às vezes, tão perto. E que bom isso.

Por Edson Pereira Filho é jornalista e professor.

Chué de heresias livrescas

CRÔNICA
Edson Pereira Filho

Sou João. Transito pelas ruas do Centro, são ladrilhadas de paralelepípedos polidos por décadas. Sinto a nobreza nessas ruas estreitas, e ao mesmo tempo tão perigosas.
Vejo a moça de vestido curto se retirando da luz do dia. Gente apressada seguindo para a morte sem saber.
Caminho naquele chão reluzente todo preto, oleaginoso. Passo pelo cartório, e lembro que meus filhos passaram a existir para este mundo.
Sigo em frente. Um cavalo garboso trespassa a rua num galope frenético, o chão parece crepitar debaixo de suas ferraduras.
De repente o animal estaca, o militar puxa o bridão, o bicho resfolega. Abre as patas no chão liso, equilibra-se, fico atônito com aquilo tudo.
Eram bancários, todos de bandeiras e palavras de ordem, protestando contra entrada de terceiros na limpeza, na segurança e, agora, nos caixas dos bancos.
Gente sem registro, sem pai e nem mãe, gente que precisa se vender por qualquer coisa para sobreviver. Sinto que a dignidade da vida é isso.
Espero dispersar, e continuo o meu caminho também para a morte certa, fazemos isso toda manhã, penso resignado.
Vejo vasos plásticos pretos numa loja de R$1,99. Os vasos, porém custam dez vezes isso. A vida tem desses desatinos, vivemos sendo enganados, e que bom, a vida seria um fardo se as coisas não tivessem a nossa impressão, tola.
Vejo livros capa duras numa carroça de reciclagem. O senhor apressa-se em colocá-los no latão retangular do que sobrou de uma geladeira, um caixão de defunto com os livros lá dentro.
Olho inconformado. Meu primeiro absurdo literário. Eu que junto dinheiro para comprar livros ainda escritos com “ph”, de palavras como pharmácia ou Phellipe. Lágrimas escorrem ao lado de meu nariz. Olho tudo, e entendo o que vai na cabeça deste povo, aliás, não entendo, concluo que são brutos.
O carroceiro diz que ganhará R$20,00 com tudo aquilo, mas de 100 livros. Só? Tiro os R$20,00, dou ao carroceiro. Em frente, uma pensão, pergunto para dona da moradia quem jogou os livros, agora molhados lá fora no chão. Ela responde que o velho leitor, um morador solitário da pensão, morrera.
Sem cerimônia, a dona do negócio tratou de jogar tudo fora, para acomodar logo outro morador. O local mais lembrava um pardieiro. A vida é imunda mesmo.
Com os livros na calçada, vou ao orelhão. Ligo para o patrão, digo que não vou para minha morte certa. Vou pra casa.
Digo para mim: vou ensaiar uma poesia cujo título será “Chué de Heresias Livrescas”, quando chegar em casa.
O taxista reclama do cheiro dos livros molhados e velhos. A velhice das pessoas sempre está em repetir hábitos que destroem suas próprias vidas, como negar o conhecimento, mesmo que ele esteja cheirando a mofo.
Chego em casa. Ponho os livros para secar no varal. Na mureta do jardim. Vejo a vida em tudo aquilo, cheirando papel, árvores que se transformaram em histórias, a evolução natural do ser, do vir a ser, porque somos, inexoravelmente. Vidas. Tudo ressoa e tudo é tão infindo dentro de mim, dou graças.

Por Edson Pereira Filho, jornalista e professor e escritor