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O tamanho do Plano de Segurança de Jungmann

Edson Pereira Filho

Mais uma vez os moradores do Rio, passados três anos da Copa do Mundo, irão conviver com o desvario militar e policial nos morros cariocas, com o novo Plano de Segurança do governo federal.

Uma grande operação montada pelo exército e policias pretende esquadrinhar cada canto das favelas cariocas.

Tais operações militares e policais, acontecerão sem pedir licença, sem alerta e sem direito de defesa legal para cidadãos comuns, lógico, todos serão suspeitos, mesmo que se prove o contrário.

Muita gente inocente terá como ponto de encontro, nestes locais, as tais balas perdidas.

Mais mortos entre civis, principalmente, é o que se deduz na fala do ministro da Defesa, Raul Jungmann.

“É preciso, para fechar comunidade com mil, dois mil homens? Vai ter (esse efetivo). Vamos fechar, fazer aquela varredura. Feito isso, saímos. Não vai ficar (nenhum marginal). Não faz sentido (permanecer). É necessário uma nova operação daqui a um mês ou 15 dias? Estaremos lá. Diante disso, a operação agora não vai ser comunicada, vai ser surpresa, assim como acontecem as operações da Polícia Federal”, detalha Jungmann, respondendo a reportagem da Agência Brasil.

No comando das operações que começarão no Rio a qualquer hora e tempo, sem que ninguém saiba, está o chefe de Gabinete de Segurança Institucional, Sergio Etchegoyen, general que comandou o exército em Brasília contra os manifestantes do Fora Temer, no último dia 24 de maio.

O Plano de Segurança, como sempre, atua nas fronteiras e estradas também, dando a visão de que o inimigo, no caso os chefões do narcotráfico, estejam carregando drogas para lá e para cá. Comprando armas e passeando nos morros cariocas.

A ironia se explica, quando se sabe que o narcotráfico fatura muito mais do que a indústria automobilística mundial. Você acredita mesmo que o chefão estaria transportando drogas e armas?

No tal plano o que não se vê, novamente, é o serviço de inteligência para prender quem de fato comanda o crime no Rio.

Há anos, por exemplo, que se fala em acabar com a comunicação nos presídios com o lado externo das prisões, agora, novamente, o ministro prometeu que vai acabar de vez com isso. Alguém acredita?

“Cortar a comunicação deste comando (do tráfico) que está hoje na cadeia e suas trocas é fundamental”, pontificou Jungmann.

Em outro ponto da entrevista o ministro destaca que “a cabeça, o comando de organizações que se internacionalizaram se encontra dentro dos presídios e penitenciárias. Na Itália, você tem a cela dura, você tem nos Estados Unidos, na Inglaterra. Isso não significa restringir o direito de defesa de quem quer que seja”, afirma.

(Entrevista de Raul Jungamann, ministro da Defesa, desrespeitando direitos básicos do preso, segundo  a Ordem dos Advogados do Brasil – OAB)
O detalhe é que se cogita na fala do ministro algo perigoso, que desrespeita, frontalmente, nossa Constituição e nossas leis, no que diz respeito ao amplo direito de defesa e de garantias constitucionais para qualquer cidadão, seja ele criminoso ou não.

Desde ponto de vista, a fala do ministro deixa entrever a possibilidade do Exército tomar para si a tarefa de administrar o estado do Rio, a sua maneira e jeito.

Atuando como se fosse numa guerra.

Sem qualquer observância a direitos básicos, seja para bandidos, seja para a população ordeira.

Assusta o que está sendo planejado e pretendido pelo atual governo em termos de segurança o Rio e para o País, já que tal projeto pretende atuar durante os próximos 18 meses.

Uma certeza, entretanto, salta aos olhos, os chefões do crime serão os menos incomodados, mais uma vez, com tais operações.

Este é o tamanho do plano de Julgmann.

Infiltrados comandaram incêndios em Brasília

Edson Pereira Filho

As manifestações pelo “Fora Temer” ontem em Brasília, deixaram além do rastro de destruição e incêndios, a suspeita de que tais atos foram provocados por pessoas estranhas ao movimento sindical e social.

Manifestantes incendeiam pedaços de tapume no Fora Temer, em Brasília
Brasília – Centrais sindicais realizam manifestação em Brasília. Destalhe para a bandeira brasileira, não muito comum nas manifestações do movimento sindical, mais usada por movimentos que apoiam Temer (Agência Brasil)

Imagens foram colhidas em frente aos ministérios da Agricultura e da Fazenda, que tiveram seus prédios depredados e incendiados, para conhecer quem de fato provocou tamanha destruição.

O senador Lindbergh Farias chegou, ontem mesmo, a denunciar no Senado os atos de vandalismos, os quais teriam sidos provocados por agentes infiltrados na manifestação “Ocupa Brasília”, organizada pelas centrais sindicais.

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, não tardou em pedir a intervenção do exército nas ruas do Distro Federal tomadas pelos manifestantes.  Maia, que é acusado na Lava Jato, é conhecido na delação dos executivos da empreiteira Oldebrecht por Botafogo.

Botafogo, apelido sugestivo para o que aconteceu ontem, diante do Congresso Nacional. O Fora Temer foi seguido de quebra-quebra e vários focos de incêndio pela esplanada dos ministérios.

E os tais ministérios que já citei aqui, queimaram sem proteção alguma, sem sequer a presença maciça de manifestantes, apenas um grupo de encapuzados e fortemente abastecidos com coquetéis molotov (garrafas carregadas de gasolina, com mexas embebidas e incendiadas com o combustível).

Mas a polícia militar não chegou lá, mesmo com um efetivo, naquele momento, de mil homens. Não tardou então, para que suspeitas recaíssem sobre o comando militar da área, já que tais grupos agiam sem resistência alguma.

O general Sérgio Etchegoyen, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional do Brasil, é conhecido por encarar movimentos sociais, em especial, os sem-terra, como terroristas. E as suspeitas então, passaram a tomar corpo, no sentido de saber quem estaria acobertando tais ações.

Segundo o comandante, os generais encaram desta forma o tema: “Não regulamos ainda o crime de terrorismo no país para não atingir os movimentos sociais. É preciso cuidar da preservação da coesão social e olhar aqueles que saem da legitimidade”. Esta declaração foi feita pelo militar para a Folha de São Paulo, no dia de sua posse como ministro de Temer.

Etchegoyem prometeu em sua posse ainda, que pretendia fazer um sério levantamento sobre os movimentos de esquerda, passando a monitorar tais grupos.

Fora Temer para Amorin

O jornalista Paulo Henrique Amorin, em seu blog Conversa Afiada, ontem mesmo, disse suspeitar de infiltrações, entre os manifestantes sociais e sindicais, de agentes ligados a outros interesses, os quais queimaram os prédios dos ministérios da Fazenda e da Agricultura, se aproveitando do protesto legítimo da sociedade que quer diretas já. O jornalista desconfia que tal ato dos infiltrados foi para apagar arquivos comprometedores do governo Temer.

Por Edson Pereira Filho, professor, jornalista e escritor.

Queda de Temer abre caminho para eleição de Lula

Edson Pereira Filho

A transição será turbulenta depois da queda de Temer, o que penso ser uma questão de dias. As forças que hoje ocupam o Planalto tentam ganhar tempo para costurar uma saída que as mantenham ainda no poder.

Brasília – O presidente Michel Temer ( fotos da Agência Brasil)

Na linha de sucessão a Temer estão os presidentes da Câmara e do Senado, Rodrigo Maia e Renan Calheiros, respectivamente, porém, os dois padecem dos mesmos crimes e estão nas denuncias da JBS e da Odebrecht.

Brasília – Aécio Neves

Sobra então, Cármem Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), que ocupará o cargo até 2018, despreparada e sem qualquer tino de comando, basta lembrar do episódio em que Renan passou por cima de uma decisão do STF, sem ao menos ser questionado pela magistrada.

Com Cármem no comando, o País sangraria política e economicamente até outuro de 2018, quando acontecem novas eleições para presidente do Brasil. Pela segunda vez, desde a morte de Getúlio em 1954, políticos elegeriam, indiretamente, um presidente.

Tal possibilidade causa arrepio e indignação no mais neófito brasileiro em política no Brasil. O quadro é muito absurdo para deixar, como na fábula, que lobos tomem conta do galinheiro (o Congresso e o País) e decidam quem deve ser o rei da matilha.


Caso haja uma ruptura neste quadro então, sem obedecer à ordem Constitucional de eleição indireta, sobrariam cassetetes e bordoadas nas ruas aos manifestantes que defendessem eleições diretas.

E é o que parece que vai acontecer, uma emenda constitucional terá que ser elaborada às pressas para conter os ânimos e redirecionar o País no rumo da normalidade democrática.

A Rede Globo não quer o desmantelamento das forças conservadoras que hoje estão, seriamente, avariadas pelos bombardeios das denuncias bilionárias dos irmãos da JBS, exímios compradores de 1.890 políticos em todo País.

O chefão dos Marinho, Ali Kamel, tenta, por todos os meios, manter sobre as hostes das Organizações Globo o descortino de tais enredos para a eleição indireta, pois sabe que disso depende, em grande parte, a sobrevivência política da emissora.

Ali Kamel escondeu o mais que pôde o depoimento de Lula, assimilou a pancada, e vem agora, em doses homeopáticas, administrando a saída de Temer, não sem antes, dar estocadas em Lula.

Os irmãos da JBS ganham destaque da emissora, quando dizem que mantinham contas e extratos sobre seus poderes de contas milionárias de Lula e Dilma, sob a anuência do ex-ministro da Economia, Guido Mantega.

O que se observa, novamente, neste intento amalucado, é o mesmo enredo dos papéis de Moro (não assinado e outro rasurado). Quando muito, é a palavra de Lula contra as dos corruptores da JBS.

Há um racha no judiciário, isto ficou claro, quando à revelia de Moro, Temer e Aécio sofreram investigações monitoradas para comprovar seus ilícitos em tentar apagar os descaminhos do dinheiro fácil.

O ministro do STF, Edson Fachin e a Polícia Federal em Brasília, sequer disseram alguma coisa para Moro ou pediram sua ajuda, já que este tinha o senador Aécio Neves também sob sua mira.

Então, Cunha perdeu a mesada, e não ficará quieto. Aécio será preso. Outros políticos começaram a cair como moscas mortas nas celas da Papuda, aliás, presumo que faltará cadeia para este tipo de gente, os quais, definitivamente, não são cidadãos de segunda categoria.

Dou um exemplo básico disso, a casa de Andreia Neves, irmã do senador Aécio, não foi arrombada. Já que a mesma não queria abrir para os policiais cumprirem a ordem de prisão, foi chamado um chaveiro para proceder à abertura da porta. Fosse na periferia, bem, um pontapé e estaria tudo resolvido.

Sobram então, oito partidos com vieses de extrema-direita e extrema-esquerda dentro do Congresso Nacional, os quais, até o presente momento, não estão enredados nesta teia de propinas, segundo os corruptores Marcelo Odebrecht, Joesly e Wesley Batista.

Tal radicalização no perfil do que sobrou de um Congresso perdulário, vai de encontro ao mesmo perfil que grassa na sociedade brasileira, dividida entre coxinhas e mortadelas. Ou para além disso, estamos num dos momentos mais agudos e preocupantes de nossa vida política.

É preciso então, ir as ruas, defender eleição direta, e Lula precisa ser o candidato das forças democráticas que até então, vinham trazendo o País na linha do desenvolvimento, da inclusão social e de avanços, substanciais, na participação de setores, antes alijados, dos projetos que levassem em conta os que mais precisam.

Égorger para liberté, egalité e fraternité

Edson Pereira Filho

Em que pese a Queda da Bastilha na França ter oito guardas e apenas um preso na masmorra, fato é que cabeças rolaram, e quem discordava abaixou a cabeça para defensores da Liberté, Egalité, Fraternité (Liberdade, igualdade, fraternidade, em português do francês). Caso não fizessem isso, os que teimassem em servir ao rei, seriam degolados. Érgorger primeiro, ou seja, sem degola não haveria mudanças.

Fotos e Gravuras: Museu do Louvre, França, Paris.

Fato é, que nas maiores mudanças históricas do mundo cabeças rolaram, nem sempre literalmente, mas rolaram.

A história mostra aqui e lá fora, que os que quiseram continuar servindo ao opressor, trabalhando, foram violentamente, muitas das vezes, rechaçados.

Se alguém tem a ilusão que paralisar pessoas é como num sinaleiro para carros, esqueça.

Metalúrgicos (do ABCD) e Bancários, por exemplo, são o que são hoje graças a paralisações onde a força foi empregada por seus militantes, caso contrário, tais trabalhadores não teriam as condições de trabalho e de salário que hoje gozam, sem falar da estabilidade alcançada com as comissões de trabalhadores formadas nestes locais.

Muita gente confunde, ou faz questão de confundir, sindicato com uma entidade inalcançável aos olhos do trabalhador, como se cada um fosse único, quando na verdade o sindicato é o trabalhador e o trabalhador é o sindicato. Se um vai mal, o outro também. Se não concorda com a direção sindical, tire-a formando chapas e elegendo quem de direito.

Então, bobo daquele que achar manifestações domingueiras, como nossa classe media andava promovendo via MBL, vão atrapalhar os planos desta gente no poder.

Ainda bem que a classe média ficou incomodada com as manifestações do dia 28 de abril, afinal, a greve é dos trabalhadores, não é um passeio de domingo no parque.

Manifestação durante a semana, com bastante tumulto, exigindo mudanças efetivas, aí sim estes senhores começam a pensar.
Tanto, que já há algo sintomático em Brasília, embora pequeno, o atraso nas votações das reformas, por exemplo.

O presidente Temer até prorrogou alguns prazos, parte de sua base, os fiéis 308 que voltavam com ele, alguns resolveram abandonar o barco depois da greve do dia 28 de abril.

Temer então, volta a carga, está negociando pacotes de “bondade” com tais deputados que bateram em retirada, oferecendo a estes cerca de R$800 milhões em emendas e, mesmo assim, as resistências continuam.

As centrais de trabalhadores já planejam uma grande invasão em Brasília, com dezenas de milhares de trabalhadores. Outros setores, antes alheios, começam a se engajar nesta próxima manifestação, ainda sem data marcada, devido os atrasos do governo que aqui citei.

O que chama a atenção como última conversa, é a Igreja Católica ter apoiado a Greve Geral, mesmo tumultuada, já os evangélicos foram até Temer, dia primeiro passado, apoiar as reformas e pedir algum, grana mesmo.

Quem pensa que mudanças, mudanças mesmo, vão cair do céu, é só olhar pelo retrovisor da história, elas, em suas esmagadora maioria, foram violentas e sanguinárias.

Por ***Edson Pereira Filho, jornalista, professor e escritor.

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Uma uva e meia: a revolução de Cármem Lúcia

Edson Pereira Filho

A presidente do STF Cármem Lúcia diz que estamos vivendo uma revolução social no País. Revolução de costumes, de mudanças de rumos.

Carmem Lucia, presidente do STF/Banco de imagens do STF

Um novo paradigma social, enfim, não se trata apenas de uma limpeza de esgoto a Lava Jato, ao explicar o papel revolucionário da Força Tarefa de Curitiba.

Lógico, Cármem jogou com imagens em sua fala, dizendo que esta está sendo a postura não só da Lava Jato, mas da sociedade, do povo, das pessoas, que desejam ter mertiolate nos postos de saúde, entre outras imagens simplórias e desconexas.

Desculpe o mau-humor, mas desde o episódio da determinação judicial do afastamento de Renan Calheiros do Senado, por ordem do STF, perdi minha paciência com o Supremo. Como todos sabem, o Justiça, como é conhecido Renan no mundo da propina, não foi afastado, ele simplesmente passou por cima da decisão do STF.

Voltando à revolução de Cármem, quem disse que se tratava apenas de uma limpeza de esgoto foi a roqueira Rita Lee,

Carmem pensa que não, é algo além disso, mudança de rumo mesmo da sociedade brasileira.

No mundo de Cármem, porém, não há a revolta na rua por emprego, direitos trabalhistas e previdenciário. Não há a Greve Geral, ah, o programa Conversa com Bial foi gravado no dia 1 de maio de 2017, portanto, depois das manifestações que se seguiram País afora, no último dia 28 de abril.

Nenhuma palavra sobre o estudante de Goiânia, que teve a face destruída e parte do cérebro também, por uma porrada do capitão Augusto Sampaio, subcomandante da 37ª Companhia Independente.

Sampaio é o mais fresco covarde que a PM produziu nas últimas horas.

Falemos de Revolução de Cármem então. Não entendo ser de bom tom uma juíza participar de um talk show para falar da vida alheia, mesmo de réus, ainda não condenados, quando muito, julgados por ela, quando ainda tudo está em primeira instância.

É essa a postura que deve ter alguém que julga pessoas? Participar de programa de televisão, dizer, mesmo que informalmente, o que pensa sobre seus futuros réus, sem se assentar nos autos do processo, é isso mesmo?

Afinal, era este o script, para que a classe media se deleitasse com a Carmem sedutora, cheia de picardia e rapapés, mais parecia um encontro de marocas.

Uma palavrinha sobre Bial

Vendo Bial me lembrei de Justus e Britto Júnior, este último levou o pé na bunda da Fazenda, o BBB da Record, porque o velhaco de madeixas brancas tinha os patrocínios sobre sua tutela. Não preciso dizer no que deu a Fazenda.

Cármem de Bizet

E Bizet de Cármem se viu ultrapassado pela Cármem, a sedutora dos trópicos, que convive com os homens, não querendo saber o que estes pensam ou andam fazendo. Ela disse que este é um conselho de mãe, o qual segue regiamente.

E com uma uva e meia de Cármem, sua refeição diária, pergunto-me: temos um novo regime para homens e mulheres.

Basta o povo agora comer uma uva e meia, mostrando seu lado austero, e aguardar esta tal revolução que, pelo visto, interessa a este teatro de horrores em que se transformou o STF.

Por Edson Pereira Filho, jornalista, professor e escritor.

No Tribunal da Santa Inquisição com Belchior

Edson Pereira Filho

Sempre cantei Belchior desde que me conheço por gente.
Em várias serestas que fiz com os meus amigos Vilson, Chico e Betão.

Fotos: Belchior/Arquivo da família

Adoro cada música de Belchior, sua voz de padre Gregoriano, aliás, foi num colégio de padres que aprendeu a cantar deste jeito.

Seu tom nordestino nas canções, seco, feito navalha.
Nunca vou-me esquecer de uma vez em Pouso Alegre, quando ele foi lá cantar.

Eu dava aula de Jornalismo numa faculdade de lá.

Eu tinha uma certa capilaridade com os alunos e alunos, saímos todas as noites pela madrugada para tocar, beber, cantar e falar de música no Bar Risca Faca.

E na vitrola do boteco, que tocava com moedas, não podia faltar Belchior.

Aliás, em Minas, as mulheres falam com você como se estivessem fazendo um canto de ladainha. Lembrei disso, porque não há lugar melhor do mundo para se escutar Belchior. As rezadeiras cantam com Belchior, é grandioso.

Bom, como dizia, dava aula na faculdade de Pouso, e fui informado de que Belchior estava na cidade e faria uma apresentação especial no teatro.

Não tive dúvida, avisei os alunos que a aula seria no teatro. Ou seja, não haveria aula, pelo menos, as minhas.

Pedi para que o motorista tocasse pra faculdade sem eu.

A moçada chegou em peso no teatro e lá fui eu ouvir Belchior, em voz nua, literalmente à capela.

De repente tudo a minha volta se transformou, parecia estar num tribunal da inquisição da Idade Média.Todos pareciam estar vestidos de padres capuchinos.

Como se estivesse eu diante do livro de Umberto Eco, em O nome da Rosa.

Via velas e tochas na lateral. E ouvia a voz rouca, num baixo profundo de meu querido e inesquecível Belchior.

Foi um dos momentos mais singulares e mais belos da minha vida.

Um sonho real, ali, o cantor Gregoriano fazia meus olhos se derramarem com brilhos chamejantes na minha face.

Ali estava um ídolo que cantei toda minha juventude, enfim, em toda minha vida.

Beijos Belchior, muitas saudades, puxa, valeu e valerá cada canção, você embalou meu sonhos com as moças, em cada esquina, em cada bar e em cada sonho.

Por Edson Pereira Filho, professor, escritor e jornalista

Militante Celular destrói redes de televisão durante a Greve Geral

Edson Pereira Filho

Incrível, neste exato momento, milhões de celulares trocam mensagens sobre a greve nacional.

Lá e cá, em cada canto da nação, nasce a greve cibernética e silenciosa, cujos patrões, políticos e militares aturdidos, tentam encontrar o inimigo, o grevista, o baderneiro, mas não conseguem.

Este é o maior instrumento de luta política dos últimos tempos, tudo nas pontas dos dedos. Marshall McLuhan já sabia lá atrás que o meio era a mensagem, aliás, como extensão de nossas mãos.

A faxineira Sônia, com quem converso entre a ida para um escola e outra, confidenciou pelo Whatsapp que a mulherada parou para “tricotar” sobre Temer.

O tal do “zap”, como ela e eu tratamos o aplicativo, ficou lotado de mensagens contra o velho babão, como gosta de falar Sônia sobre o sujeito que “está” presidente.

Outra amiga, Fátima, manda um “zap” de Brasília, por volta da meia noite de ontem, quando manifestantes tomaram a frente do Palácio do Planalto, mas as televisões não deram.

De Sampa, chegam fotos de amigos sobre as barricadas de fogo nas marginais. Da Bahia, de Porto Alegre, de Minas vêm outras tantas informações.

O Celular, quem diria, virou um velho amigo (de luta também), de conversas e encontros, de desencontros, mas ajuda muito na organização.

Mostra fatos acontecendo. Organiza piquetes, distribui a organização das pessoas nos diversos enfrentamentos contra o sistema.

E o espaço público ocupa e desocupa-se num piscar de olhos, não sendo preciso gritar palavras de ordem, apenas basta teclar.

A horizontalização da comunicação chegou em boa hora, o capitalismo que pensava transformar todo esse ambiente em uma coisa insossa e líquida, sente agora o antídoto de seu veneno. Aliás, meu zap é (19) 99420 9678.

Por Edson Pereira Filho, professor, jornalista e escritor.

Imposto Sindical é um mal necessário

Por Edson Pereira Filho

Só quem não conhece a Estrutura Sindical proporia o fim da contribuição sindical anual.

Nosso povo é analfabeto funcional, se você disser que a contribuição é coisa do diabo ele acredita.

Se você disser que é coisa de Deus ele também acredita.

Ou seja, até hoje não compreendeu para que serve sindicato.

Trabalhadores brasileiros, em sua esmagadora maioria, acreditam que a greve só não dá certo por causa do sindicato e quando a greve dá certo, bem, os louros são dos operários.

Sindicato é o trabalhador e o trabalhador é o sindicato. Se a categoria vai mal, vai mal o sindicato. Se a categoria vai bem, vai bem o sindicato.

Vejam os Metalúrgicos (do ABC) e os Bancários (Brasil), organizações sindicais fortes, participação política efetiva. Pergunte nestas bases sindicais se a maioria é contra o imposto sindical.

A maioria não é contra (bancários e metalúrgicos), até em assembleia quando se discute o orçamento do sindicato a cada eleição sindical, porque sabem que luta não se faz só com palavras de ordem.

Conheça a estrutura sindical, saiba porque ela foi montada desta maneira e entenda que a maioria de nossos trabalhadores são maria-vai-com-as-outras, por isso estão na condição que estão. São, sem sombra de dúvida, papagaios-de-piratas de seus patrões, se acham classe média e quando o calo aperta, culpam o sindicato.

Atuei como jornalista sindical durante anos. Apoiando mais de 32 sindicatos, escrevendo matérias na Central Única de Trabalhadores (CUT) e conheço, como ninguém, a cabecinha da maioria dos operários de meu País, nunca me enganei.

O sindicato precisa de estrutura, aliás muito dinheiro, para manter carros, funcionários, imprensa, advogados etc.

Só que o número de sindicalizados é ridículo, como sempre, todos os trabalhadores criticam a entidade de classe, mas são os primeiros a não participarem das assembleias, discussões e decisões, mesmo com maciças convocações.

Tirar o dinheiro da contribuição sindical, por exemplo, destruirá a Força Sindical em Sampa, no Sindicato dos Metalúrgicos. Seria ótimo para alguns, me incluo entre estes.

Agora, não é isso que deve acontecer, os metalúrgicos é que precisam tomar o sindicato de São Paulo, pois o sindicato é deles. E não tomam por quê, porque o sindicato é o espelho do caráter político da categoria, ou seja, pelega como nunca.

Olhar para o espelho é muito difícil. Pago meu sindicato e participo o quanto posso, mas reconheço que, por exemplo, 70% dos professores votaram em Alckmin para governador, este ganhou no primeiro turno.

Conheço esta história, de trás pra frente e de frente pra trás. Quando os trabalhadores e trabalhadoras do Brasil souberem pensar por conta própria e assumirem seu papel no mundo sindical, sou a favor do fim da contribuição sindical, pois a sindicalização garantirá a vida do sindicato, que somos nós, repito.

Que tal então, acabarmos com o imposto sindical vinculado a uma questão: Se o trabalhador não for sindicalizado, qualquer conquista do sindicato, seja de condições de trabalho ou condições de salário, ele não recebe.

Agora, pergunta isso para os analfabetos funcionais, vê se eles topam. É a tal história, ninguém quer olhar para o espelho, ele incomoda, e como incomoda.

Por Edson Pereira Filho, professor, jornalista e escritor.

Corrupção passiva é a marca registrada da Lava Jato

Edson Pereira Filho

Gosto de ser provocado, aceito explicar coisas que não são de todo perceptíveis na superfície dos fatos que enredam doravante a Lava Jato e seus personagens.

Brasília – Congresso Nacional/Agência Brasil- Fotos do cabeçalho também.

Há um personagem que passa incólume o tempo todo. Este ser engravatado, burocrata, que mostra o caminho das pedras (ou da grana) nos corredores dos prédios públicos.

Não falo de lobistas, de gente que leva papéis de um andar para o outro, no sentido de se beneficiar, rapidamente, do beneplácito que só o poder público pode promover em suas vidas.

Muito menos de assessores parlamentares e até de empresários, falo mesmo de funcionários públicos de carreira, gente concursada, que tem papel crucial na defesa do interesse público.

Uma situação que tem se repetido na Lava Jato é a corrupção passiva, quando o servidor facilita para que haja propinas, esta dividida com o próprio funcionário público, empresário e político.

Emílio Odebrecht chegou a dizer, em resumo, que compra com propina servidores públicos desde a Ditadura Militar. E até troça: Isso sempre aconteceu. Por que só agora vocês (juízes) resolveram investigar?

E é esta pergunta que tenho feito para eu mesmo. Como que policiais federais só viram isto agora, já que o esquema existe há 30 anos? Como juízes do Tribunal de Contas da União (TCU) não viram isso até agora? Como o povo não ficou sabendo disso até agora?

Ensaiando respostas

O povo não ficou sabendo disso até agora, porque, segundo Emílio Odebrecht, a ex-grande imprensa sempre soube desta história, mas nunca noticiou. E aí deduzo, dedução minha, que a ex-grande imprensa mamava na mesma teta da corrupção.
Há apenas um juiz do TCU citado, Vital do Rêgo Filho. Então, querem me dizer que os milhares de aditivos para pôr mais dinheiro nas obras da Odebrecht não chamaram à atenção desta gente especializada em fiscalizar o desvio de dinheiro em obras públicas? Só quem não baba nas pontas dos pés quando ereto sabe que tais juízes compactuavam e compactuam com o furto do erário.

E a Polícia Federal teve um roupante de idoneidade agora, de brios atingidos; seriam jovens policiais, ou sei lá? Fato é que a PF não fez nada para acabar com o maior e mais bem azeitado esquema de corrupção dos últimos 30 ou 40 anos, até mais, se pensarmos desde a fundação da Petrobras.

O funcionalismo em seus altos escalões, em seus cargos de decisão técnica e de fiscalização, precisam passar pelo crivo policial e judicial. O Estatuto do Servidor Público Federal precisa ser acionado em sua totalidade contra estes servidores que se beneficiaram de tais artimanhas nos atos de corrupção passiva. Precisam ser colocados na rua, sem aposentadoria e sem direito algum.

Quanto aos políticos e setor empresarial, as empreiteiras especialmente, cabem dizer quem são estes párias que infestam a máquina publica e meter todos atrás das grades. As delações na Lava Jato precisam levar em conta isso, caso contrário, o esquema estará mantido para outras gerações de políticos.

 

Doutor Jekyll na pele do BBB Marcos, em O Médico e o Monstro

Foto: Reprodução no pay per view do BBB

Edson Pereira Filho

No pay per view do BBB se vê Marcos, o namorado da Emily, ou Emilly, a namorada do Marcos. Tanto faz, ou não. Ou então, vê-se a vida como uma ferida aberta, sem rodeios, sem pompas e sem circunstâncias.

Ieda, senhora de setenta e poucos anos dorme durante o dia no mesmo quarto, no mesmo horário, em que Marcos e Emilly fazem sexo debaixo do edredom, com sussurros, gritos e uivos sem a menor cerimônia. Aliás, sexo de manhã, à tarde, à noite e de madrugada. O rala e rola era frequente, sem se importar com quem estava por perto, fosse a que hora fosse, até em locais poucos recomendados. O dia do dedo na cara de Emilly, em que Marcos teria a agredido, também teve sexo logo em seguida.

Marcos se diz médico cirurgião, tanto no pay per view quanto em uma das intervenções frente ao apresentador Tiago Leifter (ao vivo). Até aí nenhuma novidade, o médico, em uma das intervenções, alega que deixou de atender em pronto-socorro porque não aguentava ver mais pessoas morrendo, dar notícias de pacientes que não sobreviveriam mais a seus familiares.

O médico Marcos é dono de três clínicas de cirurgia plástica, e viaja de um canto ao outro, para atender e fazer cirurgias em suas unidades, passa uma semana em cada lugar. Pelo menos estas são as informações que chegam pelo pay per view.

Até aí, nenhuma novidade, mas o que chama a atenção, é que no pay per view ele não cita, em momento algum, que participa de congressos, especializações ou algo do gênero. É muito comum entre médicos do gênero, e até de outras especialidades, essas constantes viagens dentro e fora do Brasil para se gabaritar melhor, conhecer novas técnicas, enfim, se aperfeiçoar. Todavia, Marcos nunca tocou no assunto, mesmo quando falava de seu ato de fazer cirurgias.

No último domingo, se bem me lembro, Marcos esculpia em pedras de sabão o boneco cibernético do BBB. Pegou um sabão, fez o braço. Pegou outro sabão, outro braço. E foi fazendo as partes do robô pouco a pouco. Até chegar à cabeça, de cor azul escura, bem, fez os olhos, colocou uma espécie de mascará preta sobre os olhos, uma túnica na cabeça, lembrando um soldado do Estado Islâmico. Foi quando a direção do programa o proibiu de continuar a escultura (do cirurgião plástico).

Depois, dá-lhe sexo com Emilly, enquanto isso lá fora, o pai da garota que também adquirira o pay per view, via filha se relacionando como uma cadela no cio. E o médico, ‘respeitoso’, mais velho, mais sabido (não vou chamá-lo de sábio), embarcava nos prazeres da carne, sem cerimônias, o negócio era … Chegou a segredar a Emilly, depois de escapar de um dos últimos paredões a seguinte frase: Vamos fazer amor depois disso.

Sei que podem me taxar de moralista, de defensor disto ou daquilo, mas como pai, fico só imaginando como funciona esta situação na cabeça de milhões de pais. Como funciona isto para a família, pais, mães e filhos assistindo cada vulgaridade desta.

O pai assistindo a tudo isso. Marcos que ficara o tempo todo, praticamente desde o início do reality show, caçando Emilly em toda parte da casa, enquanto essa não cedesse aos seus desejos. Emilly que não queria nada com Marcos no início do reality.

A menina que depois passou a ter uma dependência estranha e a minar a presença de qualquer das trintonas ou quarentonas que chegassem perto de tão promissor “cirurgião”, desculpe-me pelas aspas, mas sinto que há algo errado com este moço. Algo não encaixa nesta história.

Explico. O tom monocórdio de Marcos, comum aos médicos, ganha contornos estapafúrdios quando este assume a postura de agressor, sim, agrediu a moça, ao marcá-la no antebraço, com um de seus apertos, insistindo para que ela acatasse suas observações. Em uma de suas conversas com a beldade, o rapagão de 37 anos, ela com 20 anos, chega a dizer que a moçoila não vestirá as roupinhas que as deixam seminua, quando saírem do programa.

A moça sucumbe aos desígnios do rapaz, a própria família aqui fora chegou a dar entrevista sobre o assunto, dizendo que Emilly teria namorado um rapaz nas mesmas condições, com o mesmo grau de servilidade, sem se aperceber de sua condição de vítima.

A Delegacia da Mulher do Rio entrou na história, e decidiu abrir processo por lesão corporal contra Marcos, que foi retirado do programa imediatamente. A fala da agressão deixa exposto uma suposta briga corriqueira de casal, porém pelas frases, se vê que tais episódios eram constantes, se não deduza você mesmo:

“Presta atenção! Presta atenção! Você só está comigo, presta atenção, só mais um pouquinho. Você só está comigo porque eu quero que você ganhe, é isso?”, pergunta Marcos.
Depois, na parte externa da casa, Emilly reclama de dor no punho:
“Eu não quero saber. Olha aqui, tu me beliscou de novo, Marcos. Tu apertou meu pulso, tá doendo”.
Marcos argumenta: “Tá, peraí, toda vez que você mostra isso eu tenho que mostrar as vezes que você me unhou”.
Emilly rebate: “Foi uma vez”.

Ao observar tais cenas, é preciso deixar claro que tais personagens perderam a noção de estarem sendo vistos, depois de um longo tempo privados da realidade externa. Só que a Lei Maria da Penha não prevê em seus artigos, pelo menos que eu saiba, tal situação de laboratório humano. Nestes locais, porém, as pessoas costumam mostrar o que realmente pensam ou fariam, devido estarem à flor da pele, com estresse no máximo, devido à situação de privação de sua liberdade momentânea de ir e vir.

Todavia, durante o último domingo, Marcos passou a observar mais as câmeras, a olhar sempre de soslaio para cada uma delas, nos diversos pontos da casa, como se tivesse dado conta de suas ações, agressões verbais e intimidações junto a outras participantes da casa.

Um sujeito metódico, com olhar sempre de dúvida, sempre milimétrico no falar e nas ações, mas que explode deixando entrever para todos que pode cometer algo mais sério. Tanto isso aconteceu, que muitos, durante o programa, evitavam ficar por perto. No pay per view, diariamente, isto ia ganhando novos contornos, foi quando a direção do programa, avisada pela polícia e já se apercebendo de um comportamento fora dos padrões globais, risos, resolveu tirar o moço de cena.

Dito isso, o resultado deste BBB, pouco importa, penso. Acompanho reality, pois gosto de saber o que pensa a média dos brasileiros e brasileiras. Como agem, em determinadas situações, gente das classes A, B ou C. Como são as mulheres brasileiras. Como são os homens. O que cada um pensa da condição humana. O que há de ética entre estas pessoas. E fica claro, pelo menos para mim, o porquê de nosso País caminhar a passos largos para a lama, para sua falta de bom senso, para não preocupação com outro, pelo não respeito à defesa da vida, pelo desrespeito à mulher.

A imagem que se vê dentro e fora do BBB é tão singular, tão profunda e também tão enfática, sobre nossa real situação moral, nosso ato de pensar e agir diante de fatos e pessoas. E isto incomoda, incomoda olhar para tal espelho, um País sem escrúpulos, de pessoas sem um pingo de discernimento e pouco ou nada comprometidas consigo mesmas. Um País que cisma em não dar certo.

Edson Pereira Filho é professor, escritor jornalista