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Oiá, Ginga e Mangueira

Por Edson Pereira Filho

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

A Mangueira nos apresentou Oiá, e com tamanha sabedoria só podia ser campeã do Carnaval no Rio, após 13 anos à espera de um título.

Oiá e Iansã são a mesma coisa, dentro da Mitologia Iorubá, é a mulher que dominou 11 deuses, entre eles Xangô e Ogum, fazendo amor com eles e, esse era o seu ardil, amar sobre todas as coisas e quantos homens fosse possível.

Só que o amor de Oiá conseguia se apoderar de toda sabedoria de cada deus negro do olimpo.

Sua representante aqui na Terra, Maria Bethânia, que sempre cantou Oiá, quando disse que “Iansã tem um leque que venta, para abanar dia de calor. Iansã mora na pedreira, eu que ver meu pai Xângo”.

Filha de Oxum, Oiá teve nove filhos com Ogum, quando adquiriu os atributos da forja e da espada.

Com Oxaguiã, pôde usar o escudo do guerreiro.

Com Exu, teve a força da magia e do fogo, tendo o poder de realizar desejos seus e de seus protegidos.

Com Logum Edé, adquiriu a sabedoria da pesca.

Bem, foram 11 deuses, mas Obaluaê não quis saber de Oiá.

Ao final de tantas conquistas, Iansã foi se aquietar no Reino de Xangô.

Pois bem, com tamanha sedução Oiá entrou na Sapucaí, encantando os deuses da avenida. Não só os deuses, mas os jurados e juradas.

A guerreira apresentou sua filha “Maria Bethânia- a menina dos olhos de Oyá”, quando a escola homenageou a cantora na última segunda-feira (8/02) no sambódromo da Sapucaí.
Este passou a a ser o 18° título da escola, o qual ganhou pela última vez em 2002.

Treze anos depois, Oiá abriu os caminhos com sua espada e escudo. Soltou a magia de Exu e ganhou a todos na avenida.

Xangô e Ogum voltam para o Olimpo Iorubá com a deusa, satisfeitos, porém a guerra dos deuses pelo amor de Oiá continuará nas retretas dos céus.

A Mangueira foi impecável, irrepreensível. Jamelão aceitou o moço de Nossa Senhora, intérprete oficial da Mangueira, Ciganerey. Sincretismo puro e bate a cabeça no chão para o branco pensar que se salda a mãe branca, mas Oiá está debaixo da terra também.
Oiá olhou lá de cima com olhos marotos para o cantor da Mangueira, Ogum triscou a espada e Xangô quer tirar Iansã da casa de Ogum. A briga promete.

Como promete a história de uma mortal guerreira africana. Ginga, pois é, se fala tanto em ginga por aí, mas não se sabe a origem. Ginga foi uma guerreira africana de carne e osso, aliás, muita carne, que viveu durante 80 anos, construiu impérios e dominava boa parte do continente africano. Ora ela se vestia de homem, ora seus homens se vestiam de mulher nas batalhas. Era uma deusa sábia e rápida, assassina e doce, guerreira e mulher, alegre e triste, como são os mortais. Pois bem, foi com Ginga que nasceu toda nossa ancestralidade, nosso jeito de ser, do povo brasileiro ser. Lutar sem perder a sensualidade, a dignidade e a alegria, mesmo que tenha sangue, dor e tristeza, pontos tão antagônicos, mas que definem bem nossa genealogia e todos estes anos de luta de mangueirenses. Salve Oiá. Salve Ginga. Salve Mangueira, minha escola querida.
Por Edson Pereira Filho, jornalista, pedagogo e professor