Arquivo da tag: riso

Vá rir na clínica da Suelen

Por Edson Pereira Filho

Acordar já é um fardo, acordar sorrindo, tenha paciência. Rir é preciso, mas rir o tempo todo, não dá.

Sair então, com o objetivo de rir um pouco, deve ser um exercício semanal, não diário.

Explico. Não tolero gente sorrindo logo pela manhã, não é engraçado e pronto.

Acordo mal-humorado. Não dirijo uma palavra nem a mim mesmo diante do espelho.

Faço o café e tomo. Vou abrindo a mente. Os olhos ficam mais angulares, a medida que a cafeína vai tomando o corpo, mas fico monossilábico, pensando nos fatos da vida, nas contas e nas obrigações vindouras.

Pronto. Desperto e vou à luta. No final da tarde, estou bem, já conversei com muitas pessoas e até ri.

Tenho uma vizinha, por assim dizer, que ri o tempo todo. Ri tanto, que quando está séria, quando, por exemplo, peço para tirar uma foto com meu celular, de meus filhos, eu e minha esposa, ela o faz com tremenda simpatia, atenção. Até aí, nenhuma novidade.

O detalhe é que mesmo séria e recatada por alguns segundos, ela deixa todas as fotos tremidas, não tem jeito, mesmo com orientação técnica de como produzir uma foto, minimamente, visível, sem os solavancos de risinhos contidos.

Ela, que se chama Suelen, ri até quando está quieta, ri por dentro, penso eu.

Suelen é cabeleireira, é mestre em trançar cabelos afros, é amiga de minha filha, e se tornou amiga da casa.

Fomos hoje ver “Minha Mãe é uma Peça 2”, no cinema de um shopping, em Campinas.

Suelen é uma delícia conversando no carro, ri até do rapaz que atravessa apressado diante de seu carro. Ela vai ao volante, nós vamos de carona.

Quando chegamos no shopping, antes do cinema, resolvemos fazer uma boquinha, comer um lanche, tomar alguns chopes. Pedimos, antes, que ela fizesse uma foto: eu, filha e filho, minha esposa. Não teve jeito, ela voltou a tremer nas fotos que pedimos antes do filme.

Conversa vai, conversa vem, para quem pensa que Suelen leva uma vida de risos, sem dramas, se engana redondamente.

Quando conta de suas clientes em seu salão de beleza, bem, a vida apesar dos risos, ganha contornos dramáticos, quando não patéticos.

Suelen, no seu salão, vira uma cronista do drama feminino, aliás, cada história, vejamos:

Angélica, a angelical – Esta cliente gosta de recolher crianças, mulheres, jovens e adultos em situação de rua em sua casa.

Figuraça. Angélica leva a pessoa para casa, dá banho, oferece comida, roupas e em seguida pede para que a pessoa volte pra rua quando anoitece.

Suelen conta que pergunta a cliente por que faz isso: “porque é mais forte do que eu”, tasca a moça, sim, com vinte poucos anos atendendo e dando de comer a mendigos de rua.

Chororô – Suelen ri destas e outras personagens, mas tem uma que parece coisa do outro mundo.

Quando chega ou sai do salão depois de fazer tranças, chora copiosamente, sem motivo algum, sem sentir dor, nada.

A cabeleireira finge que está tudo certo, não pergunta mais nada, porque já percebeu que a tal cliente adora o choro, antes e depois de acertar os cabelos. “Vai querer entender um troço desses”, comenta Suelen, entre risos.

Moça do Piolho – Essa até a mãe de Suelen ficou brava, ao saber que a filha atendera a cliente com o cabelo cheio de piolhos.

Suelen, em princípio, negou-se a atender a cliente, dizendo que a mesma precisava cuidar dos piolhos, usando produtos e coisa e tal.

A cliente ficou imóvel na poltrona, olhando para o espelho, nem aí para o que Suelen dissera.

Não teve jeito, a cliente foi taxativa: só saio daqui com o cabelo feito.

Suelen respirou fundo, e começou o serviço de trançar. Não demorou muito, os insetos subiam em seu braço.

Usando toalhas e um pouco de álcool gel, a cabeleireira terminou o serviço.

A cliente explicara que já tinha feito de tudo para se livrar dos tais piolhos, Suelen, sempre cuidadosa, chegou a orientar a mesma a procurar uma ajuda espiritual, para quem sabe, resolver o malfeito que provocava aquela colônia absurda de piolhos.

Após a cliente ter ido embora, com o cabelo devidamente trançado, Suelen colocou fogo em tudo, até em pentes, escovas e tesoura.

Pois é, quem vê Suelen sorrindo o tempo todo, sempre dando risada, não imagina o que ela ouve e passa.

Sempre me pergunto se ela decidiu levar a vida assim, a resposta (dada por mim mesmo) é quase sempre não.

Suelen, apesar do riso, é uma mulher séria, batalhadora, não brinca em serviço. Entretanto, passa uma imagem leve, com um frescor de jardim depois da chuva tropical.

Suelen é um desses seres com luz própria, inexplicavelmente, instigante e sedutor.

Quantas vezes não imaginei Suelen, numa entrada de qualquer empresa, hotel, aeroporto, ou sei lá, recebendo com seu jeito e sorriso pessoas das mais diferentes expectativas, abrindo o coração das pessoas sem forçar a barra.

Sendo anfitriã de festas. Sendo administradora de conflitos. Guia de viagens, sei lá, na linha de frente recebendo e comemorando a vida.

Pode até parecer exagero o que conto sobre Suelen, mas esta coisa de não sorrir o tempo todo eu entendo.

Jà Suelen é uma força da natureza, ri, sem forçar, sem parecer demais e abre portas e mentes com seu jeito descompromissado e feliz.